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14.12.08

The Smiths - Well I Wonder


Acústica, bateria e
baixo (e pouco mais)

num arranjo Pop

desinteressante, algo

triste e muito vazio...
Sublime no seu
encanto
até ás
profundezas
da
maré Oceânica,
Poderoso no seu
feitiço até ao
arquejo ultimo

de um coração

francamente

esgotado de

angustias.


O que nos conta - numa voz que é uma tristeza de ouvir, de tão humana, colorida e expressiva que é, brotando-se em emoções e sofrimento na densidade de cada palavra que canta - é o anúncio d'ultimo, do mais simples e doloroso, do mais sincero e miserável desejo de um amante despedaçado perante o amor, cego da realidade, consumido até à extinção:

"Não me esqueças nunca...

Lembra-te de mim, não como eu me recordo de ti, das tuas mãos e da pele que as cobre, dos teus cabelos e dos meus desejos, da tua face, a tua face cola-se-me nos olhos! É todo um mundo de ti que não posso sentir nem tocar, nem ser eu mesmo diante de ti, olhando-te, cego do que somos...

Não. Não desta maneira, mas não te esqueças nunca, por favor! Não te esqueças jamais, na vontade em que eu seja algo que tu queiras lembrar, sorrindo... Num sorriso de tédio, num movimento resignado."


O amante, caído por entre as poças de água, mais fraco que qualquer uma das gotas que caiem, reduzido a menos de coisa nenhuma pela roedora possibilidade de ser esquecido, deixa-se morrer,

Diluído com a chuva nas memórias do amor,

Esperando que ela,

Por vezes,

Faça o mesmo.
Não te esqueças nunca.


Well I wonder
Do you hear me when you sleep ?
I hoarsely cry
Oh ...
Well I wonder
Do you see me when we pass ?
I half die ...

Oh ...
Please keep me in mind
Please keep me in mind
Gasping - but somehow still alive

This is the fierce last stand of all I am
Gasping - dying - but somehow still alive
This is the final stand of all I am
Please keep me in mind
Well I wonder
Well I wonder
Please keep me in mind
Keep me in mind
Keep me in mind



Steven Patrick Morrissey


4.12.08

Immolation Song



Cortinas corridas sob o mundo, olhos fechados, volume o mais alto possível, e vá amnésicos, Soltem-se!
- - -

É um como um Mar...
Que estala contra a minha pele, encharcando-a até à dissolução em poeira;
Que me quebra os ossos contra o seu fundo e sob todo um peso de Oceano;
Que me esventra os ouvidos com investidas de absoluto Pantalassa em perfuração ensurdecedora;
Que me esmaga o maxilar com a força de cataratas titânicas de azul salino;
Que desenraíza do tronco a minha espinha dorsal, decepada em dois por lâminas de água fria;
Que me rasga os músculos e me fende em berros de dor perante marés vivas de pujança absurda;
Que me entope e me faz rebentar por dentro - órgãos, veias, artérias e crânio, tudo rompido e misturado numa corrente de sangue e mar - debaixo de léguas de escuridão marítima.
Que em vagas inunda um pulmão e depois o outro, largando-me sem fôlego, a engolir o horror liquefeito por entre convulsões e contracções de despedaçar as costelas que se enterram nas carnes;
Que me rarefaz a visão e calcifica a íris: caleidoscópio marinho submerge a consciência sob branco ondulante de luz difusa;
Que me colapsa o miocárdio, mórbido e disfuncional, banhado pelas águas litorais de um areal, vermelhas e viscosas do plasma sanguíneo jorrado por um ultimo batimento cardíaco, já todo ele maresia eufórica!

É Mar...
Que me escorre para o cérebro, como escorre chuva para a sarjeta;
Em vórtice, deconstruindo a massa encefálica e electrocutando a actividade neurótica;
É o altar onde me imolo e me lavo de existir.
É! É! É! É! Eh! Eh Mar!
Que me inutilizas como água sob um rastilho e espalhas noite sobre o pensamento.


- - -

No fim - Vazio - para depois da noite levantar, voltar a encher com os assuntos da vida.
Oh! Mas esta terapia para deixar partir as ideias, por vezes é o que me faz falta!



Eluvium



13.11.08

Jerusalem

 

O próprio Deus pecou! A música que acompanha este post, pela primeira vez (já!?), não possui nada 'especial' em si mesma. É no próprio som da banda que se encontra a singularidade, e não é na singularidade de cada uma das músicas que ela se manifesta. Por tal, a música que aqui se encontra é possivelmente, a mais genérica em relação ao som que os caracteriza e que eu tanto acarinho e destaco.
Pensei até mesmo em meter duas músicas em vez de uma para que melhor se perspective o que eu direi a seguir. E talvez o faça, logo se vê!

- - -

O ditongo das vogais 'a' e 'u' com a nasalização da letra 'm' são as peças do famoso mantra Hindu, o som do absoluto, o eco primordial, símbolo do três estados de consciência (vigília, sono e sonho) e a ponte para o além transcendente e vazio do real.




A sua vocalização desperta uma vibração hipnótica no crânio que liberta a mente do pensar (man: 'mente' ; tra: 'libertação' em saṃskṛtā). As ondas se espalham pelo corpo Humano, chocando com as suas fronteiras e voando noutra direcção em constante crescendo. E o corpo vira anfiteatro da meditação que por sua vez há-de virar ponte de peregrinação para os reinos oscilantes e dos espiritos.

- - -

Os mesmos sintomas e essência esotérica apresenta o som do duo intitulado Om.
Apenas um baixo e uma bateria são necessários para erguer e cimentar as divagações desta banda: improvisações à roda de riffs pré-concebidos na mente, apoiados pela bateria tribal e cuja raiz axial é a melodia da voz, o genuíno maestro do todo.
É impressionante o trabalho de baixo em todas as músicas; os riffs circulares lembram feitiços, e acompanhados de distorção ribombante, soam e actuam como verdadeiros mantras!
A voz, como ultimo bloco do arco, dá a cor e a fluidez ao instrumental sendo hipnótica e incontornável para a paisagem tão de meditação, do espírito e transcendência convalescente.

Existem dois tipos básicos de composições onde entre o pêndulo Om oscila e se mistura; as mais Stoner e Doom (e Sleep!) onde o baixo entoa por toda a faixa, o seu mantra congelador do raciocínio, como comando que divide em bocadinhos manuseáveis e abertos a mente do ouvinte em busca do desconhecido e de si, e a voz soa mais ameaçadora e de retórica cambaleante, falando no divino; e aquelas de som manso e flutuante onde o Pastor é o compasso de uma bateria muito mística e panteísta. As palavras murmurantes e subversivas em tom sagrado, criam a telepatia, criam a ponte e convidam o ouvinte a libertar-se ou, talvez, a penetrar-se ainda mais fundo!

Isto é o verdadeiro cume ascético atingido em escalada musical! O voo sonoro da metamorfose!

Bhima's Theme possui um pouco dessas ambas faces, é a amostra mais abrangente que é possível dar com uma só música, do som desta banda. Se quiserem aprofundar a visão clara dos extremos que falei recomendo que ouçam, para um a On The Mountain At Dawn | OM (bandcamp.com) e para o outro, a Pilgrimage | OM (bandcamp.com).

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Om
"Aummmmmmm..."

28.10.08

Musics that should make the moment last an aeon..



Este é um caso pessoal.
Esta pequena faixa, que passa facilmente despercebida (assim, descontextualizada!) e que já ocupou muitos 1 minutos e 42 segundos da minha vida é um caso pessoal.
Este autêntico altar que 'Tagguei' na last.fm como musics i could listen for a whole aeon (mas queria era dizer algo como isto: musics that should make the moment last an aeon.) é um caso pessoal muito sério...

Porque por vezes a Vida presenteia-nos com momentos que deveriam pender para sempre por cima de nós, travando o tempo e o curso de tudo, momentos que deveriam transformar-se na própria vida...

…Mas já lá vamos, primeiro que tudo o porquê.
Assim, sem paisagem que a rodeie, só de ouvido, não passa de uma curta música gira, com umas melodias e ritmos bem combinados e trabalhados, perfeitamente fundidos no tom
algo shoegaze das guitarras. No máximo, seríamos capazes de perceber a genialidade do compositor desta peça e ouvi-la em loop (ela é aquilo a que eu chamo 'Música capicua', faz um loop natural) enquanto estamos a estudar ou ler etc…
Mas não passaria disso, não seria uma daquelas músicas que conotaríamos de 'especiais', algo que frequentemente fazemos às canções em que identificamos na letra, um trecho que descreve 'perfeitamente' um momento da nossa vida tal como nós o sentimos. Mas… e as músicas instrumentais? Descrevem alguma coisa?!?

A resposta é óbvia. São até, muito mais ricas nesse aspecto que qualquer canção, são é mais subversivas e menos perspicazes...
E há basicamente, duas formas de retirar interpretações de toda e qualquer parte instrumental que chegue aos nossos ouvidos, sendo que a diferença entre elas é se a interpretação parte do contexto que a música descreve, ou da música em si. A primeira forma verifica-se quando o ouvinte sabe qual é o contexto que a música pretende descrever, isto ou porque é ele o próprio compositor da música, ou porque de alguma forma informou-se sobre o porquê da criação daquela música. Ou seja, nesta forma de interpretação, o contexto é a primeira ideia a surgir, sendo a música, um produto desse contexto.
A segunda forma é inata a todos nós: trata-se de sentir. Quando ouvimos qualquer coisa, deduzimos a partir desse som, um contexto que descreve o que sentimos ao ouvi-lo.
A diferença é que nas canções, ambas as formas de interpretação estão presentes, enquanto que em peças instrumentais, supostamente, o ouvinte só consegue retirar interpretações de acordo com a segunda forma, ou seja, o sentir.

Mas nesta música em particular, eu conheço o contexto, a situação, o momento que ela descreve, o momento que ditou a sua criação. E considero que ela é a descrição absolutamente perfeita desse momento.
A razão por que conheço o contexto, é porque esta música faz parte da banda sonora de um jogo, e ao passarmos pelo momento do jogo em que esta música aparece (apesar desse momento só se revestir de todo o seu simbolismo devido ao que acontece depois) apercebemo-nos imediatamente do que ela nos transmite, tal é a perfeição com que o faz!


Não vou dar-vos em concreto o exemplo do jogo para descrever o simbolismo da música (os jogadores atentos que jogaram tal obra-prima, certamente saberão qual é esse simbolismo de que falo).
Mas posso descrever a coisa da seguinte maneira:


Voltam do trabalho, terminou o turno da tarde, o que dita o final de mais um dia banal, monótono.
Dirigem-se então para casa, e ao passarem por uma rua habitual e familiar, começam a notar que os cães vos ladram de modo mais agressivo do que é habitual, o vento insiste em travar-vos a marcha, lançando contra vós todas as folhas e plásticos e poeira mortos na estrada. As árvores agitam-se de maneira ameaçadora ao sabor do vento que assobia fantasmagoricamente, as luzes estão demasiado brilhantes…
Por alguma razão, sentem que isto são mais do que coincidências, há uma premonição, há a premonição de que esta noite, será a pior da vossa vida…
Chegam a casa, perturbados.
Dirigem-se à janela, o sol está a pôr-se, fortemente alaranjado. Ficam a assistir, enquanto ele cai, em tons cada vez mais vermelhos e é então que esta música entra em cena. Ela chama-se End of a Small Sanctuary e, efectivamente, a partir desse momento, o vosso santuário ruiu.
Tudo o que julgam ser seguro e inofensivo o suficiente para permitirem que coexista à vossa volta, simplesmente deixa de o ser, e a noite chega, inevitável, para trazer até vós o Inferno que ninguém acreditava ser possível existir…

12.10.08

Respostas Interiores..



Fim da Tarde, saio de casa com o capuz enfiado - chuva suave, dos começos do outono - cabeça bem enterrada nos ombros, trajado de cores pobres, pretos e cinzentos, azuis murchos e baços, numa camuflagem emocional enquadrada no ambiente...
O sol precipita-se no horizonte, num tom laranja sanguíneo que mancha as nuvens. Não o vejo directamente, afoga-se entre prédios e edifícios, pequenos o suficiente para o eclipsarem da minha perspectiva humana minimalista. Despedimo-nos por isso, ás cegas, sinto que estamos em sintonia, ambos queremos a noite, pois que estamos glaciais...
Caminho sem destino, vasculho as ruas, avenidas, becos, praças, parques, estradas e trilhos monocromáticos desta cidade sem pulsação, com os olhos atentos, introspectivo.

Les gestes sont des regrets
Qu'un temps mort accentue;
L'énergie se perd, les envies se trainent,
Chaque phase de malaise altère la raison.

Este ninho onde os Humanos se amontoam, parece mais um berço da Morte! Os sons caóticos das horas de ponta também dormem de noite. Para receber a lua, a sinfonia citadina compõe-se de ecos distantes, frios, geométricos, perfeitamente polidos e afiados, como lâminas, de cadência suicida, que todos juntos formam uma estranha forma de Silêncio...
O silêncio de ser estranho e perdido entre a multidão, silêncio que só nós ouvimos, silêncio da solidão, silêncio esse que é, na verdade um constante murmúrio onde a energia se perde e os sonhos sucumbem.
Arrependida e resignada é a gente que passa, arrastando fadiga e frustração para casa. Vejo-os olhando as linhas de comboio. Reflectido nos seus olhos negros, o brilho lunar dos carris; é assim que a vêem, pois este é um vale, entre montanhas de aço e metal, escuras como o céu, e a Lua é um mito esquecido entre neons e lâmpadas...

Humeurs instables inavouées,
Faiblesse des sens et frustration
Etouffant la conscience.
Je m'écoeure.

O jogo de luzes dissolve-me os pensamentos, caí um nevoeiro na minha mente!
Atento no ar que respiro, que não é ar, é veneno!
Ventos moribundos que morrem nas esquinas, numa agonia surda fantasmagórica, espalham-no por este imenso cemitério de betão, campo de concentração dos desolados, um mero vómito de design e arquitectura antinatural cheio de lixo e pó, pó! Onde encontrar pó e cotão senão aqui, por entre estas urnas erguidas matematicamente, numa concepção bizarra?
Esse veneno que é o ar, causa-me náuseas! Pior! Causa surdez, mudez, cegueira, desumanização, numa palavra, apatia!
Pois que vejo os carros e as luzes e fico bêbedo e cego, perco-me do céu, descontextualizo-me das pessoas!

Salissure intérieure;
Les corps sont des réfuges aux caresses
Rendus inodores dès qu'ils gerbent leur semence.
Un vide permanent endormira les restes.

Cada um é uma fronteira, um muro de si mesmo que desliza por este mar urbano, chocando com outros muros, autênticas ilhas ocas sem querer saber! O mundo não existe, é como se todos os outros fossem apenas uma criação de cada um de nós.
Cruzo-me com estes autómatos e vejo nas suas caras a ausência de algo para expressar ou sentir. A indiferença roubou-lhes a alma e agora são meros cadáveres sem trela e sem ancora, perdidos de si neste fim do mundo convexo onde estes dejectos da racionalidade se dirigem para os seus respectivos colossos de cimento, empoleirados uns em cima dos outros, trancados nas suas gaiolas, procurando no zero, as sementes da futilidade com que darão relevo ao dia seguinte. Perfeita apostasia do ser!
Vê-los causa-me ainda mais Náuseas que o ar industrial!
Vê-los causa-me uma dor! Uma raiva animal, uma selvagem sensação de poder! Não quero ser assim! Corro por entre a multidão, num desvairo furioso, esbracejo e gesticulo violentamente contra estas correntes e arames e laços que me prendem e me trancam dentro de mim mesmo, atiro-me à apatia que me rodeia e desmembro-a em pedaços! Que se dane, deitarei esta maldita cidade a baixo se for preciso! Que morram todos, morrerão sozinhos!
Eu prefiro gritar, gritar que nem um louco! Grito a imperialização do meu ser! Grito a posse completa do Eu!
E se morrer, morrerei comigo mesmo!


JE M' ÉCOEURE!!!


Amesoeurs - Faiblesse des Sens
letra por Audrey S.

28.9.08

Há no olhar do moribundo a cor do Defunto?

 

É tão mórbida esta melancolia instrumental!

A cadência arrastada, fria, desumana das guitarras deixa-me desamparado, à deriva numa sensação de vazio desesperante.
O tom acústico de toda a música torna tudo tão visceral e íntimo, a bateria orquestra a passada fúnebre e um ambiente doentio paira no ar forçando-nos a baixar a cabeça, é-nos roubado brilho dos olhos e a esperança do coração. As lágrimas secam, o sorriso morre, e a morte dentro de nós, vive!

É de certa forma, o espelho e o hino ao moribundo, o lençol que cobre a morte deixando uma nesga por onde se adivinha que o futuro foi esquecido e afogado como um copo de álcool entre muitos outros numa noite de dor e lágrimas entre muitas outras nesta frágil e triste vida, singular e vazia.

Na alma do ouvinte desta sinistra decadência monorrítmica, deste ultimato à existência, silenciador do apelo da vida, vai-se espalhando uma patologia macabra, enchendo cada canto como uma corrente de água nauseabunda, derrubando cada horizonte como vagas negras de um Oceano fétido.
A apatia é dona do coração badalando em nós sentimentos de futilidade e desprezo pela existência!

As notas vacilam, na epilepsia do som, tentando romper com a agonia que flutua à nossa volta, sedando-nos os sentidos, como quem tenta romper com o destino e virar as costas ao epílogo.

O ar à nossa volta está a uma distância oceânica dos pulmões, impossível de percorrer porque a traqueia enche-se com nada, a apatia silencia a fala e a morte induz o coma emocional, a gravidade inverte-se, o tempo aniquila-se e o espaço colapsa.

Já não há o que expressar, o que sentir, já não há o que ser… Há no olhar do moribundo a cor do defunto, um sorriso conformado e a certeza de que o fim é como esta canção, triste e vazio, mas apenas um começo. Mais um.

Hypothermia - Rakbladsvalsen IV

14.9.08

Bluestream



Esta espécie de Balada sinistra pintada sobre paisagens Trip-Hopescas é primeiro que tudo, um Hino à sensualidade.
A voz suave que em tom irónico murmura, conspira, e poisa sobre mim palavras embrulhadas na mais macia das sedas…
Palavras essas, encarniçadas no intento, vorazes na ânsia de rasgar o vestido daquela minha criatura que se atreve a interromper os meus passos, a desmoronar os meus sonhos, a roubar o meu coração, sem, no entanto, fixar os seus olhos nos meus...
Os acordes distantes, ondulantes, hesitantes que acompanham a sua passagem, como que deslizando no seu vestido branco, com leves toques de azul e violeta aqui e ali, tornam tão física esta sensação de desprezo! Transformam o pequeno lago que nos separa num Oceano inavegável.
Será ela a ilha para lá do horizonte? Dizem que a sua única estação é um Inverno estéril de 12 meses, ano após ano... o Sol é um mito.
E, no entanto, por que sinto uma transumância tão abundante percorrendo as tuas terras?
Serás assim tão fria?
Então porque sei que no lugar do coração, tens um jardim invejável perante o próprio Éden?

Não obstante esta composição inicial que me faz desejar até a secretária que está à minha frente e percorrer a sua madeira com as minhas mãos pecadoras como se esta fosse a mais virgem e pura das carnes femininas,
a razão por que coloco esta música aqui é outra…

(... O seu sonambulismo perante o meu Desejo ardente consome-me as palavras. Elas já não valem a pena. Elas são um mero eco dos ventos que passam…)

E é por isso que aquele solo de guitarra faz todo o sentido nesta música: notas tímidas, agrupam-se aos poucos, hesitantes, numa corrente Blues que cresce, alimentando-se a si própria para ajudar o meu corpo a expressar aquilo que o espírito não consegue compreender. Exercitando a minha coluna dorsal à força do que só um estilo tão subtilmente emocional como o Blues desencanta, sinto que sou capaz de voar.
À medida que as escalas crescem em tamanho e em velocidade, sem medo e sem nexo, a respiração perde o controlo e os pulmões juntam-se à festa, numa pulsante competição com o coração.
As notas parecem entrar por onde o Suor sai.

E subitamente ela caí sob os meus braços dormentes... Eu percorro os seus lábios com olhos vidrados que acabam por encontrar os dela, e aí ambos partilhamos na alma, a mesma verdade, a mesma certeza.
O banquete inicia-se, composto pelas fraquezas de cada um e é o espírito quem se alimenta!

E tão ingénuos como crianças, metamorfoseamo-nos nos mais Dantescos Demónios para consumar o mais Divino dos abusos!

Deliciem-se também vós!

Emptyself - Doll faced Vulture

10.1.91

A peregrinação do meu ser pela arte.
Destaque para a música.
Subjectividade garantida.

"Aproveito para manifestar o orgulho que tenho na música que me é contemporânea. Julgo que há demasiada gente que acredita que a qualidade e criatividade musicais estão comprometidas nos dias que correm. De facto, algo mudou, mas não foi nenhum desses dois aspectos. Foi a forma de chegar até eles. A minha geração possui aquilo que as anteriores não tiveram à nascença: uma independência da informação, o contacto global, a liberdade de conteúdos, numa palavra, internet. O funil da troca de cassetes, do passar de mão em mão, o funil das bandas locais, nacionais, o funil da crítica musical que chegava (e chega) através de revistas, rádio, TV... A internet desfez todos eles. A música do mundo é a música que está na internet, a internet é o mundo! E quem desenvolveu todo o seu gosto musical através da internet, como é o meu caso, tem apenas isso como ponto de decisão, o seu próprio gosto, a sua própria subjectividade. E quanto mais genuíno é o percurso, mais perfeito sairá o espelho. Acredito que nos anos futuros (se a internet não mudar, não deixar de ser mundo) os putos de hoje serão amanhã os ouvintes com o gosto musical mais completo e mais honesto que a humanidade já conheceu."
palavras escritas a 3 de setembro de 2010